O que levar em conta para melhorar o conforto acústico?

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Imagem retirada de https://www.archdaily.com.br/br/923739/o-que-levar-em-conta-para-melhorar-o-conforto-acustico

Mesmo sem querer, às vezes você acaba conhecendo a vida do seu vizinho ao lado, por ouvir todas as suas conversas através das paredes. Ou perde o sono quando o cachorro que vive no apartamento acima resolve fazer um passeio no meio da madrugada. Possivelmente você mora em um local com um isolamento acústico inadequado das paredes e/ou lajes. Com cidades cada vez mais densas e construtores buscando maiores margens de lucro, não é raro que o conforto acústico seja deixado de lado em diversos projetos de arquitetura. Quando o som é excessivo ou indesejado, ele passa a ser denominado ruído e impacta o corpo, a mente e as atividades humanas. Ainda que nem todos os espaços precisem selar quaisquer tipos de sons, como câmaras herméticas, criar espaços com um grau adequado de isolamento acústico melhora a qualidade de vida de todos usuários.

O isolamento acústico é a capacidade de estancar de som o ambiente em relação ao seu exterior. Ou seja, ele pode servir para encobrir os ruídos vindos da rua ou os sons gerados dentro do próprio ambiente, não os deixando “vazar” para fora. Trata-se da capacidade das superfícies em criar barreiras, impedindo que o ruído passe de um ambiente ao outro. Para conseguir um ambiente isolado acusticamente, as ondas sonoras deverão ser refletidas novamente ou totalmente absorvidas pelas superfícies do material, sem que nenhum som seja emitido do outro lado.

Mas um ambiente com um bom isolamento acústico nem sempre corresponde a uma acústica de qualidade. Já abordamos sobre esse tema nesse artigo. Todos os materiais de construção possuem propriedades acústicas, pois absorvem, refletem ou transmitem sons que os atingem. Quando as ondas sonoras são refletidas, causam um aumento nos níveis gerais de eco e reverberação em um espaço. Ou seja, um espaço construído de materiais reflexivos, como o concreto, apresenta diversos ecos e pouca clareza sonora, o que pode ser desejável para determinados usos, como em igrejas, por exemplo. Já absorção acústica é o fenômeno que minimiza a reflexão das ondas sonoras em um mesmo ambiente, fazendo com que o som desapareça imediatamente após sua emissão. Quanto mais material absorvente for adicionado ao ambiente, menor será o seu tempo de reverberação.

É aí que reside a maior parte das confusões em relação aos materiais acústicos. Para conseguirmos o isolamento acústico necessitamos de grandes massas, ou seja, paredes e lajes espessas e pesadas. Os materiais considerados bons absorvedores sonoros são os leves (pouca massa), moles e porosos. Já os materiais com características de isolantes acústicos são os pesados (muita massa), duros e lisos. Se a ideia é diminuir o ruído entrando ou saindo de uma sala, deve-se aumentar a massa estrutural das paredes, piso e teto e selar as lacunas de ar em portas e janelas. Mas se o propósito é tornar o ambiente mais agradável, com menos ruídos de ecos, são as absorções sonoras o que buscamos. Para auditórios, teatros e cinemas, onde a acústica deve ser o mais próximo do ideal, deve-se realizar uma análise dos materiais de todas as superfícies e das plantas e cortes do recinto, e definir o quanto de absorção e reflexão é desejado em cada um dos pontos. Para isso, a experiência de um especialista em acústica é imprescindível.

Para conhecimento preliminar, é importante saber as características dos materiais mais comuns a se utilizar. Para tal, há tabelas que listam os coeficientes de absorção de cada material quando expostos a determinadas frequências (Hertz). Varia de 0,00 (perfeitamente reflexivo) a 1,00 (perfeitamente absorvente). Por exemplo, um coeficiente de 0,2 significa que 20% da energia sonora que entra em contato com esse material é absorvido e não é refletido de volta na sala. Ou seja, esse material é 80% reflexivo para determinada frequência sonora. Para facilitar a classificação, utiliza-se o NRC, que significa Coeficiente de Redução de Ruído e é uma classificação padrão que corresponde à média aritmética dos coeficiente de absorção para as frequências de 250, 500, 1000 e 2000 Hz. Para se ter uma noção, abaixo alguns materiais e seus respectivos Coeficientes de Redução de Ruído.

Materiais menos absorventes
- Alvenaria rebocada | 0,025
- Concreto aparente | 0,03
- Vidro | 0,03
- Mármore | 0,01
- Granilite | 0,015
- Superfície metálica | 0,025
- Cerâmica | 0,015

Materiais mais absorventes
- Lã de Vidro | 0,68
- Lã de rocha | 0,72
- Espumas acústicas | 0,5
- Chapas acústicas de fibra de madeira | 0,57

Tendo o conhecimento dos materiais, é possível ter uma ideia melhor do comportamento do espaço projetado. O conforto acústico pode depender de uma boa absorção sonora, de um eficiente isolamento acústico, ou de ambos simultaneamente. Além da possibilidade de combinar materiais reflexivos e absorventes na obra, há produtos no mercado que servem a esse mesmo propósito. Em termos práticos, a escolha de um material para absorção acústica em um projeto vai além dos dados técnicos como o coeficiente de absorção e frequência do ruído, dependendo do custo, resistência, disponibilidade e aparência, entre outros. O importante é entender as necessidades do ambiente e as características de cada material empregado no projeto. Para a escolha dos materiais, deve-se combinar todos os elementos necessários de forma a obter o melhor resultado para a finalidade desejada.

Fonte: Archdaily