Acústica mal projetada em salas de aula prejudica o desempenho e o bem estar dos alunos e professores

Compartilhe:

Imagem retirada de https://www.archdaily.com.br/br/924089/acustica-mal-projetada-em-salas-de-aula-prejudica-o-desempenho-dos-alunos/5d6c715c284dd11655000398-poorly-designed-acoustics-in-schools-affect-learning-efficiency-and-well-being-photo?next_project=

Poucas coisas irritam mais que a exposição a ruídos excessivos, por longos períodos de tempo ou a incapacidade de entender o que precisamos ouvir. Seja uma obra próxima, o tráfego de uma rodovia, o ar condicionado ou o vizinho aprendendo saxofone, pesquisas mostram que ruídos podem contribuir para doenças cardiovasculares, aumento de pressão, dores de cabeça, alterações hormonais, distúrbios no sono, redução no desempenho físico e mental e a redução do bem-estar. Por outro lado, em um ambiente acusticamente "confortável", além de ouvirmos o que desejamos, nos concentramos melhor e nos sentimos mais calmos.

A preocupação com a criação de ambientes acusticamente confortáveis é geralmente relegada a cinemas, salas de concertos e estúdios de gravação. Mas é particularmente importante em ambientes de aprendizado, como salas de aulas, já que influencia diretamente na relação ensino-aprendizagem. O desconforto acústico pode prejudicar o processo de aquisição de conhecimento, interferindo na atenção e piorando a comunicação entre aluno e professor.

Pesquisam mostram que salas de aula desconfortáveis provocam incômodo e alterações de humor - contribuindo para o aumento dos níveis de estresse e cansaço nos estudantes e diminuição de habilidades cognitivas. Devido à interferência acústica de ambientes externos na sala de aula, a necessidade de falar mais alto ocasiona esgotamento vocal e auditivo de professores e alunos.  

Para entender melhor as questões envolvendo a acústica, é importante conhecer alguns conceitos essenciais. As ondas sonoras, quando interceptadas por um receptor como o ouvido humano, são coletadas e transmitidas como informação ao cérebro: ou seja, elas são 'ouvidas'. Enquanto a intensidade acústica é dada em decibéis (dB), o tom do som é expresso como "frequência", através da unidade Hertz (Hz). O ouvido humano saudável é sensível a uma gama muito ampla de frequências, de cerca de 20Hz a 20.000Hz. Abaixo e acima desta faixa estão infrassom e ultrassom, respectivamente.

Convenciona-se que, em um edifício ou uma sala de aula, quatro tipos de sons estão presentes:

- Ruídos externos (dos veículos, do pátio, das quadras de esportes),

- Ruídos internos (conversas paralelas),

- Ruídos de impacto (passos, pulos),

- Ruídos de equipamentos (de sistemas de condicionamento de ar, ventiladores, computadores)

Todos esses ruídos, somados, influenciam no conforto acústico dos ocupantes. Segundo a OMS, Organização Mundial da Saúde, o nível seguro de ruído em uma sala de aula não pode ultrapassar os 35 decibéis. Na França, viu-se que com o aumento de cada 10 decibéis em ruídos de uma sala de aula, as notas de linguagens e matemática dos alunos diminuíram em 5,5 pontos [1]. A partir daí, a capacidade de aprendizado é prejudicada.

Outros parâmetros usados ??para descrever a distribuição do som são:

- Tempo de reverberação: o tempo que leva para o nível de som diminuir após a fonte de som ser desligada;

- Isolamento acústico: características do material das áreas da superfície de um espaço, que determinam a transmissão do som.

Tendo isso em mente, outro conceito importantíssimo para uma sala de aula é o Índice de Transmissão de Fala (STI), que diz respeito à qualidade da transferência da fala para os ouvintes. Se o tempo de reverberação em uma sala de aula for superior a 0,6 segundos, as crianças sentadas além das primeiras fileiras terão muita dificuldade em distinguir entre as consoantes e, portanto, não poderão aprender adequadamente. Quanto maior o tempo de reverberação, menor a capacidade de compreensão devido à sobreposição de sons, ou seja, menor a inteligibilidade da mensagem. Isso quer dizer que falar mais alto não fará muita diferença para a clareza, e ainda tornará o ambiente mais confuso (com maior intensidade de som).

Mas como você pode melhorar o conforto acústico nas salas de aula? Aplicando os produtos e materiais certos, você pode encontrar alternativas eficazes para melhorar a acústica em seus espaços. Para reduzir a entrada de ruído externo, é ideal isolar acusticamente os elementos do edifício, o que significa aumentar a massa de paredes e lajes e investir em estruturas mais estanques. A massa de uma construção é tradicionalmente percebida como o melhor fornecedor de isolamento acústico. No entanto, os sistemas de construção leves de hoje podem garantir uma proteção externa eficaz contra ruídos, embora seja necessário um cuidado especial ao considerar a especificação e o detalhamento desses sistemas construtivos.

Materiais absorventes, como lã mineral em painéis de teto ou parede, argamassa ou placas de gesso acústica, ajudarão a reduzir o ruído de sobrecarga e impacto dentro do edifício, que também será influenciado pela escolha do revestimento da parede ou do piso. Objetos que espalham o som nas paredes, ou absorvedores de parede, eliminam ecos perturbadores que podem ocorrer entre as paredes, os chamados "ecos vibratórios". Materiais mais porosos em superfícies internas (principalmente tetos) também ajudarão a reduzir reverberações, melhorando a inteligibilidade da fala.  

Melhorar a acústica das salas de aula é, portanto, crítico para um processo ensino-aprendizagem adequado. E os ganhos afetam os alunos e os educadores, que não precisarão exceder o limite da voz. E os arquitetos têm um grande papel nisso.

Fonte: Archdaily